A trança do gaúcho não é a do pantaneiro

A tralha trançada é mais que arreio: é memória do peão brasileiro. Conheça a origem, as variações regionais e o valor cultural por trás de cada peça.

A trança do gaúcho não é a do pantaneiro
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A tralha trançada brasileira é uma das expressões mais ricas da cultura material do campo, e cada região do país desenvolveu, ao longo de séculos, um jeito próprio de fazer. Não é só estilo. É o resultado de ambientes diferentes, animais diferentes, lidas diferentes e influências culturais diferentes que se combinaram em cada pedaço do território.

A origem da trança em couro

A técnica do trançado em couro chegou à América do Sul com a colonização ibérica. Espanhóis e portugueses trouxeram técnicas europeias, que se misturaram com saberes indígenas e africanos pra produzir formas próprias do continente. No Cone Sul, essa mistura ganhou identidade definida no que hoje conhecemos como tradição gaúcha.

A geometria do trançado não é decorativa por acaso. Couro trançado distribui força de forma mais eficiente que couro torcido ou costurado, dura mais sob tração lateral e não escorrega tanto na mão. O trabalho do guasqueiro do Rio Grande do Sul foi reconhecido pelo Estado como patrimônio histórico e cultural justamente porque carrega séculos de técnica acumulada.

O guasqueiro do Sul

A tradição gaúcha do trançado tem nome próprio: guasqueiro, derivado da palavra guasca, que designa a tira de couro cru. O guasqueiro é o artesão especializado em transformar couro vacum sem curtimento em apero crioulo, conjunto que inclui cabresto, cabeçada, rédea, cinchas e outros elementos da montaria gaúcha.

A técnica principal é o trançado em tento. Tento é o nome da tira fina cortada do couro cru, e o trançado pode usar 4, 6, 8, 12 ou 16 tentos, dependendo da peça. Quanto mais tentos, mais densa e refinada a trança. Além do trançado, o guasqueiro domina pirografia, modelagem e costura artesanal.

A origem do ofício remonta ao período colonial, quando o gaúcho histórico se desenhava nos campos do Rio Grande do Sul e dos países do Prata, caçando o gado selvagem deixado pelos jesuítas espanhóis. A Universidade Federal de Santa Maria mantém um projeto de extensão, o Memoriaguasqueira, dedicado à preservação e difusão dessa tradição.

O peão de comitiva no Centro-Oeste

A tralha do Centro-Oeste, especialmente do Pantanal, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, carrega a marca do peão de comitiva. Comitiva é a designação dada ao grupo organizado de peões que conduz boiadas entre fazendas e centros consumidores, com funções definidas: capataz (chefe da operação), ponteiro (segue à frente do gado tocando o berrante), meeiros, chaveiros, culatreiro (fecha o grupo) e cozinheiro.

A peça de arreio dessa região foi pensada pra atravessar pantanal e cerrado em jornadas de semanas, com chuva, calor, atravessar rio, mato fechado e poeira de fim de tropa. Por isso a tralha pantaneira tende a ser mais robusta, com couro mais grosso, fivelaria de fácil reposição e desenho menos ornamental que o gaúcho. Função pesa mais que decoração.

A herança cultural dessa tradição é farta de vocabulário próprio: bruaca (bolsa de couro pra mercadoria), cangalha (estrutura de madeira e couro pro lombo do animal), tropa, sinueiro (boi experiente que comanda a manada), traiado (homem com a tralha completa). Cada palavra carrega uso prático e referência a uma situação real do dia a dia da comitiva.

O vaqueiro nordestino

No sertão nordestino, o vaqueiro desenvolveu uma cultura material totalmente distinta, ditada pelos espinhos da caatinga e pelo calor seco do bioma. O traje icônico, conhecido como armadura do sertanejo, inclui gibão de couro grosso pra proteger o corpo dos espinhos, perneiras, chapéu reforçado e luvas, tudo construído com couro curtido localmente.

A tralha do cavalo segue o mesmo princípio. Couro grosso, robusto, em geral curtido vegetalmente com taninos locais, com desenho funcional pra durar contra o atrito constante do mato espinhento. O trançado existe, mas em formas mais simples e robustas que o do Sul.

Há ainda uma camada cultural fascinante: a influência árabe nas vestimentas e práticas equestres do sertão, registrada em estudos recentes, que aponta paralelos entre o gibão sertanejo e trajes do Norte da África. O Brasil rural é, em muitos aspectos, mais cosmopolita do que parece à primeira vista.

O cavaleiro caipira do Sudeste

São Paulo e Minas Gerais formaram, historicamente, o coração do tropeirismo brasileiro. Sorocaba foi por décadas o principal entreposto de muares do país, recebendo tropas vindas do Sul que abasteciam o ciclo do ouro em Minas, o ciclo do café no Vale do Paraíba e o desenvolvimento do interior paulista. A primeira grande rota tropeira, datada de 1730, ligava Laguna em Santa Catarina a São Luiz do Purunã no Paraná, depois seguia até Sorocaba e Ouro Preto.

Da cultura tropeira nasceu o cavaleiro caipira do Sudeste, com tradição própria de marcha (cavalo Mangalarga, Mangalarga Marchador, Campolina), prova de marcha e cavalgada de fazenda. A tralha dessa região tende a privilegiar o capricho ornamental: cabeçada com testeira larga, alpaca brilhante, contas trançadas, fivelaria detalhada. É a tralha que se mostra na prova e na cavalgada de domingo, mais que na lida de gado pesada.

Memória que cabe na mão

Cada peça de tralha trançada feita à mão hoje, em qualquer região do Brasil, carrega esses séculos de tradição regional. A trança do gaúcho não é a do pantaneiro porque o gaúcho não é o pantaneiro, e a peça de cada um responde ao seu próprio mundo.

Comprar peça artesanal regional é, de certa forma, levar pra casa um pedaço dessa cultura específica. Não é só couro com metal. É memória de povo, técnica acumulada de gerações, e identidade que sobrevive em cada nó dado à mão.

Por isso quem entende paga o preço sem hesitar.

Onde nasceu a tradição do trançado em couro no Brasil?

A trança em couro chegou com a cultura ibérica no período colonial, foi misturada com técnicas indígenas e africanas e ganhou identidade própria em cada região. No Sul, virou o ofício do guasqueiro, hoje reconhecido como patrimônio histórico do Rio Grande do Sul. Cada região do país desenvolveu depois sua própria variação.

Por que a tralha gaúcha é diferente da do centro oeste?

Porque o uso é diferente. O gaúcho lida em estância com clima frio e tradição de prata trazida da península ibérica. O peão de comitiva atravessa pantanal e cerrado, precisa de peça robusta, prática, que aguente água e mato. Cada paisagem moldou um jeito de trançar.

Trançado de oito cabos é mais forte que de quatro?

Não necessariamente. Mais cabos dão mais densidade e visual mais trabalhado, mas a força final depende do couro, do apertado e do uso. Trançado de quatro cabos bem feito em couro grosso aguenta tanto quanto um de oito mal apertado. A tradição usa de 4 a 16 cabos conforme a peça.

O que é o gibão do vaqueiro nordestino?

É a peça de couro grosso que protege o vaqueiro do sertão dos espinhos da caatinga e de coices ou chifradas do gado. Faz parte da armadura do sertanejo, junto com perneiras, chapéu reforçado e luvas. Surgiu no século XVII junto com a expansão pecuária no sertão e tem influência árabe documentada na sua estrutura.

Por que valorizar peça artesanal hoje em dia?

Porque o que se compra carrega história, técnica e tempo de gente. Industrial entrega volume e padronização. Artesanal entrega memória cultural, durabilidade e personalidade. Comprar peça regional artesanal é também ajudar a manter viva uma tradição que tem séculos e que dificilmente volta se desaparecer.

Fernando Fabrício

Fernando Fabrício

Faço traias artesanais aqui em São Manuel há mais de dez anos. Cabeçadas, rédeas e peças sob encomenda em inox, alpaca e zamac, sempre com atenção à durabilidade e ao acabamento.